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Florbela Espanca_Sonetos 1

Segunda-feira, 19.01.09

 

 

 

E porque gosto muito de Florbela Espanca , O livro "Sonetos" (Livro de Mágoas, Livro de Soror Saudade e Charneca em Flor)  tenho na minha cabeceira da cama, pelo prazer que me dá a sua leitura. Assim,  retirei da Net a sua Biografia ( e também três sonetos que eu gosto muito) para com os meus amigos "beber" um pouco a boa poesia.  Amanhã, transcreverei  outros dois sonetos, também eles cheios de alma

 

Biografia

Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa, a 8 de Dezembro de 1894, sendo baptizada, com o nome de Flor Bela Lobo, a 20 de Junho do ano seguinte, como filha de Antónia da Conceição Lobo e de pai incógnito. É em Vila Viçosa que se desenrola a sua infância. Em Outubro de 1899, Florbela começa a frequentar o ensino pré-primário, passando a assinar Flor d'Alma da Conceição Espanca (algumas vezes, opta por Flor, e outras, por Bela). Em Novembro de 1903, aos sete anos de idade, Florbela escreve a sua primeira poesia de que há conhecimento, «A Vida e a Morte», mostrando uma admirável precocidade e anunciando, desde já, a opção por temas que, mais tarde, virá a abordar de forma mais complexa. Ainda no mesmo ano, Florbela começa a escrever uma poesia sem título, o seu primeiro soneto.

Conclui a instrução primária em Junho de 1906, entrando para o actual sexto ano de escolaridade em Outubro do mesmo ano. No ano seguinte, Florbela aponta os primeiros sinais da sua doença, a neurastenia; além disso, escreve o seu primeiro conto, «Mamã!». Em 1908, Antónia Lobo, a mãe de Florbela morre vítima de neurose, após o que a família se desloca para Évora, para Florbela prosseguir os seus estudos no Liceu André Gouveia, com o chamado Curso Geral do Liceu, cuja sexta classe (próxima do 10º ano actual) completa em 1912. Entretanto, em 1911, começa a namorar com Alberto Moutinho, mas acaba por se afastar deste, em virtude de uma nova paixão por José Marques, futuro director da Torre do Tombo. Após romper com este, no ano seguinte, Florbela reata o namoro com Alberto Moutinho e, a 8 de Dezembro, uma vez emancipada, casa com ele, pelo civil, aos 19 anos.

Em 1914, apesar de algumas dificuldades económicas, o casal muda-se para o Redondo, na Serra d'Ossa, onde abre um colégio e lecciona. Numa festa do colégio, Florbela recita, pela primeira vez, versos seus em público. É no ano seguinte que Florbela inicia o seu caderno «Trocando Olhares», que completa ao longo de cerca de um ano e meio. Em 1916, a revista «Modas e Bordados» publica o soneto «Crisântemos», cheio de alterações ao original, e Florbela torna-se amiga da directora e da sub-directora da revista, Júlia Alves, com quem, aliás, inicia correspondência. Alguns meses depois, torna-se colaboradora do jornal «Notícias de Évora», e desiste de um projecto intitulado «Alma de Portugal», um livro de acentuada carga patriótica, e que conteria as partes «Na Paz» e «Na Guerra».

Em 1917, após ter regressado a Évora, Florbela completa o actual 11º ano do Curso Complementar de Letras, com catorze valores; apesar de querer seguir essa área, acaba por se inscrever, em Outubro, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, o que a obriga a mudar-se para Lisboa, onde começa a contactar com a vida boémia. Na sequência de um aborto involuntário, em 1919, Florbela tem de se mudar para Quelfes, perto de Olhão, onde apresenta os primeiros sintomas sérios de neurose. Pouco depois, o seu casamento desfaz-se e Florbela decide ir para Lisboa prosseguir o curso, separando-se do marido, e passando a conhecer a rejeição da sociedade. Em Junho de 1919, depois de alguma correspondência trocada com Raul Proença, sai a lume o «Livro de Mágoas»; posteriormente, completa o terceiro ano de Direito. No ano seguinte inicia «Claustro das Quimeras»; simultaneamente, passa a viver com António Guimarães, em Matosinhos, com quem se casa em 1921, após o primeiro divórcio.

De volta a Lisboa, em 1923, Florbela vê publicado o «Livro de Soror Saudade», mas tem de se mudar rapidamente para Gonça, perto de Guimarães, para se tratar de um novo aborto. Assim, Florbela separa-se do marido, que pede o divórcio, oficializado em 1924; isso leva a que a família de Florbela não lhe fale durante dois anos, o que a abala muito.

Em 1925, depois de se ter mudado para a casa de Mário Lage em Esmoriz, casa com ele, pelo civil e, depois, pela Igreja. Dois anos depois, enquanto Florbela traduz romances franceses para a Livraria Civilização no Porto (que publica oito trabalhos seus), e prepara «O Dominó Preto», o seu irmão falece, o que a torna uma mulher triste e desiludida e inspira «As Máscaras do Destino». Enquanto a relação com o marido se desgasta progressivamente, a neurose de Florbela agrava-se bastante; é neste período que, possivelmente, se apaixona pelo pianista Luís Maria Cabral, a quem dedica «Chopin» e «Tarde de Música»; talvez por isso, tenta suicidar-se. Em 1929, Florbela passa por Lisboa, onde lhe é recusada a participação no filme «Dança dos Paroxismos», de Jorge Brum do Canto, e segue para Évora, onde, em 1930, começa a escrever o seu «Diário do Último Ano». Passa, então a colaborar nas revistas «Portugal Feminino» e «Civilização», e trava conhecimento com Guido Battelli, que se oferece para publicar «Charneca em Flor». Já em Matosinhos, Florbela revê as provas do livro, depois da segunda tentativa de suicídio, em Outubro ou Novembro, período em que a neurose se torna insuportável e lhe é diagnosticado um edema pulmonar. A 8 de Dezembro, dia do nascimento e do primeiro casamento, Florbela suicida-se, cerca das duas horas, com dois frascos de Veronal.

 

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!            

Languidez

Tardes da minha terra, doce encanto
Tardes duma pureza de açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes de Anto,

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!
Horas benditas, leves como penas,
Horas de fumo e cinza, horas serenas,
Minhas horas de dor em que eu sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar...

E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...
Árvores do Alentejo
Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

                        Florbela Espanca

 

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publicado por Alexandrino Sousa às 19:07


12 comentários

De manu a 19.01.2009 às 21:44

Amigo Alex! Hoje nem vou comentar em verso tal a magnitude do que nos oferece. Apenas lhe digo que, entre os muitos livros que sempre tenho aqui à minha beira, tenho um com a obra desta poetisa fantástica e imortal no qual - volta e meia - pouso os meus olhos e respiro inspiração. O seu post de hoje é o verdadeiro serviço público de que tanto se tem falado ultimamente. Abraço.

De Alexandrino Sousa a 19.01.2009 às 21:58


Amigo Emanuel,

Pois saiba que desde miúdo devoro os versos de Florbela e passe a imodéstia, em alguns também me identifico um pouco com ela ou seja, tristeza nas palavras, desilusão, fatalismo... Mas sabe tão bem ler e reler poemas de tal maneira bem feitos, tão nobres e tão cheios de encanto...

Abraço
Alex

De SweetDreamer a 19.01.2009 às 22:43

LooL ...Alex pensa assim...Mais vale fazer.te rir do qe fazer.te chorar...xD
Quanto a Florbela Espanca....Adoro.a e felizmente já tive a opurtunidade de ler 'Sonetos'...Só numa palavra 'Fabuloso'...
Florbela merece sem duvida todos os elogios que lhe possamos tecer...foi uma grande mulher,e marcou a poesia deste país...mais importante ainda...Transmitiu.nos maravilhosas mensagens!!

Beijinho*

De Alexandrino Sousa a 20.01.2009 às 22:37


Carine,

Obrigada. Ainda bem que também gostas de Florbela.

Beijinhos
Alex

De Velucia a 20.01.2009 às 01:57

Oi Alex

Comentar Florbela?
Não, não poderia!
Sou uma pessoa que nunca fui incentivada à leitura, nem de revistas em quadrinhos quando de minha época na escola. Hoje, após adulta, e após passar por problemas emocionais é que dei início a alguns versos que escrevo, que estão aquém de tudo isso.
Sou uma iniciante a leitura de poesias. Florbela, há muito pouco soube dela, por uma professora de literatura que comentou e até pesquisamos na internet.
E hoje lendo um pouco mais...
Percebo o quanto o sofrimento dela! E não acredito que seja um suicídio premeditado. Talvez a dor da alma e a vontade enorme de conseguir dormir é que levou-a tomar tantos medicamentos. Talvez o desespero.
Já passei por insônias, sei bem o que é isso!
Já quis dormir e não conseguia. Era como se a morte fosse chegando e não tinha forças para reagir.
Uma coisa lhe digo! Somos nós mesmos que provocamos tudo isso, por não sabermos lidar com as situações. Todas as doenças, acredito que a nossa própria mente quem cria, os abortos involuntários também.
Se você ler "O Livro Disso" - Autor: Georg Groddeck(psicanálise) saberá do que estou falando.
É uma pena a Florbela não tê-lo conhecido, era da mesma época, mas era médico alemão.

Desculpe este ENORME comentário!

Se puder enviar via e-mail toda a biografia como consta no seu blog eu ficaria contente.

abraço


Abraço.

De Alexandrino Sousa a 20.01.2009 às 22:13


Olá Vera,

Sim, quem poderá comentar estes versos escritos com tanto intensidade??Eu também nunca sería capaz.
Olha, já copiei para word a Biografia que pediste, só que não vi teu e-mail (não encontrei no teu perfil), vi mal??

Beijos
Alex

De Ventania a 20.01.2009 às 09:13

Esta é a minha poetisa favorita...
Transmite um mundo de emoções com meia dúzia de palavras apenas. Se ela não tivesse posto um termo ao seu ser... nem quero imaginar onde teria chegado na literatura PT.
Bom gosto o teu!
Beijinho

De Alexandrino Sousa a 20.01.2009 às 22:24


Olá Clara, como vais?
Sim, também é a minha poetisa favorita, e sabes que nunca me canso de ler os sonetos dela? (que não consigo decorar...).

Ainda bem que gostaste

Beijinhos
Alex

De sp a 20.01.2009 às 21:15

Olá Alex!!
Também adoro Florbela Espanca. Aliás foi com os poemas dela que eu comecei a gostar de poesia... e eu até me dei ao trabalho de passar todos mas mesmos todos os sonetos, do livro " Sessenta Sonetos de Amor", porque o livro não era meu...
Beijinhos

De Alexandrino Sousa a 20.01.2009 às 22:27


Olá Sandra,

Parece que fiz bem em relembrar alguns sonetos de Florbela...Assim também conheço os gostos dos meus amigos...

Beijinhos
Alex

De NeS(s) a 23.01.2009 às 16:50

Adoro a Florbela Espanca...
Tem poema lindissimos x)

De Alexandrino Sousa a 23.01.2009 às 19:25

Olá Vanessa,

Então já somos dois (e todos os outros) que gostam de Florbela Espanca

Beijinhs
Alex

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